Poesia do livro Patuá de Mell Renault

Elétrico

Terra
vermelha
arde

de
vento
num rodopio
do
destino.
Roda-gigante
girassol
venturas
mil
num céu
anil
que
afoga
no mar.
No sagrado
da
tarde
canarinho
canta
no fio
de luz.

Tempestade

No meio
do tempo
a sagração
do rio.
Fiandeiras
tecendo brasas
e
vulcão aceso
moldura renda.
No meio
do Sol
a sagração
da chuva
e
um vendaval
no meio do caminho.

Nascente

É preciso
chover.
Deixar-se
banhar
da água-sal
que é feita
a lágrima.
É preciso
chover.
Deixar-se
molhar
por esse filete
de rio
que escorre
o mar.
É preciso
chover
e deixar-se
lavar
pela unção
do seu
próprio choro.
É preciso
chover
para se abençoar.

Proteção

Sou de mim
patuá
folha
flor.
Sou de mim
patuá
luz de sol imenso
luz de lua rasa.
Sou de mim
patuá
raízes
profundas
num deserto
bravo.
Sou de mim
patuá
uma fé
absoluta
que
me ensina a
vencer
demanda
vingar
caminho.
Sou de mim
patuá
em verso
prosa
e fruto.

Quintal

Sol
labareda
lambe
o solo
molhado.
No meio
do dia
poças
afundam
barcos
de papel.
Cascalhos
furam os pés
enquanto
pitangas
adoçam
infâncias.

Sólido

Saber da pedra
sua inscrição
sua saliência.
Da pedra saber
sua ranhura
sua mística.
Saber da pedra
sua crueza,
sua concretude.
Da pedra saber
sua manifestação
rocha
moinho
lama.
Saber da pedra
destino
sua sina rupestre
marcando
o tempo
do caminho.

Rosacor

Para Carlos Figueiredo

A rosa
existirá
além
da lira
além
do nome
de sua cor.
A rosa
carnessência
da pétala
viverá
na consciência
antes do rito
num místico canto perfumado
/ oásis da criação /.

Calar

No meu silêncio
há um repouso
de mil folhas
que
não descansa.
No meu silêncio
há um milagre
que faz
brotar
girassol.
No meu silêncio
há uma distância
que aproxima
léguas.
No meu silêncio
mora
borboleta
ninho de passarinho
chuvas.
No meu silêncio
há uma luz
que
de tão profunda
escura
revela
/ o silêncio /
mil pétalas
que abrem
flores
no jardim.

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Marinho

Entre
a rosa
e
o sal
se insinua
uma
fogueira
que
trepida
lágrima.
Entre
a rosa
e
o sal
se esconde
uma
ternura
que
invade
tudo.
Entre
o sal
e
a rosa
se instaura
um coração
que
sangrando
faz nascer
o deserto.

Permanecer

Dentro
da noite escura
que existe
em mim
mora
uma cabocla velha
que fala
o idioma
das luas;
essa língua
um manifesto
natural
ordena
ao meu coração
que eu
sobreviva.
Dentro
de mim
essa cabocla
entoa
os cantos
de ontem
reafirmando
assim
um futuro
de bênçãos.
E ordena
ao meu coração
que
sobreviva,
num
manifesto natural.

Inquietude

No silêncio
imenso
da chuva
existe um canto
entranhado
que esgarça
o azul
da lágrima.
Nesse silêncio

o repouso
de mil pássaros
que oram
pelo natural
em nós.
Também nesse silêncio
vive
uma umidade
sonora
que ressoa
num dialeto-gota
que
molha
todo seco coração
que
agoniza.

Calar

No meu silêncio
há um repouso
de mil folhas
que
não descansa.
No meu silêncio
há um milagre
que faz
brotar
girassol.
No meu silêncio
há uma distância
que aproxima
léguas.
No meu silêncio
mora
borboleta
ninho de passarinho
chuvas.
No meu silêncio
há uma luz
que
de tão profunda
escura
revela
/ o silêncio /
mil pétalas
que abrem
flores
no jardim.

Vegetal

Raízes profundas
deflagram
meu estado:
sou
livre.
Meu voo
é
asa-árvore
no pé
do quintal.

Habitante

Inquilina
da terra,
pátria
de
flores
e
frutos.
Nasci
madura
numa casca
ainda
verde.
Inquilina
de mim
caule
sangrando
seiva
brotei
ao avesso
na fissura
da pétala.

Eu

Desconheço
qualquer parte
de mim
que
não seja
mato.
Flor silvestre
no lugar
miúdo
do coração.
Desconheço
parte qualquer
de mim
que
não brote
vida.
Açucenas
dançam
no dilatar
das pupilas.
Desconheço
parte alguma
de mim
que
não tenha
vasta natureza
inexplorada
e que
não venha
outro dizer
o contrário:
sou
o espírito ancestral
da mata
porque é nas minhas mãos
que florescem
os campos.

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