João Cabral de Melo Neto

Biografia

João Cabral de Melo Neto nasceu em Pernambuco, na cidade de Recife, a 09 de Janeiro de 1920. Foi o segundo filho de Antônio Cabral de Melo e Carmem Carneiro Leão Cabral de Melo.
Em 1930, iniciou o curso primário no Colégio Marista. Era amante do futebol, sendo campeão juvenil pelo time Santa Cruz de Futebol no ano de 1935.
Em 1937, conseguiu seu primeiro emprego, na Associação Comercial de Pernambuco. Trabalhou também posteriormente, no Departamento de Estatística do Estado. Aos 18 anos começa a frequentar a roda literária do Café Lafayette.
Em 1940, viajou, acompanhado de sua família, para o Rio de Janeiro. Conheceu Murilo Mendes, que o apresentou a Carlos Drummond de Andrade e alguns outros intelectuais.
No ano de 1941 participou do Primeiro Congresso de Poesia do Recife, onde apresentou suas “Considerações sobre o Poeta Dormindo”.
Em 1942, João Cabral publicou seu primeiro livro, que se tratava de uma coletânea de poemas chamada “Pedra do Sono”. No mesmo ano viaja para o Rio de Janeiro, onde foi dispensado de sua convocação para servir à Força Expedicionária Brasileira, por motivos de saúde. Permaneceu no Rio, e foi aprovado em concurso e nomeado Assistente de Seleção do Departamento de Administração do Serviço Público.
Após ter sido funcionário do DASP, em 1945, inscreveu-se no concurso para a carreira de diplomata. Neste mesmo ano publicou o livro “O Engenheiro”. Deste ponto em diante inicia uma jornada, em 1947, por diversos países, mudando-se para várias cidades do mundo.
Em 1950, publicou o poema “O Cão Sem Plumas”, e depois disso passa a escrever sobre temas sociais.
Em 1956, escreveu o poema “Morte e Vida Severina”, sendo este o maior responsável por sua popularidade.
Eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 15 de agosto de 1968, tomou posse em 6 de maio de 1969. Em 1984, foi designado cônsul-geral na cidade do Porto, em Portugal, retornando ao Rio de Janeiro em 1987.
João Cabral de Melo Neto faleceu, vítima de um ataque cardíaco, em 09 de outubro de 1999, no Rio de Janeiro.

fonte da biografia:
https://www.infoescola.com/escritores/joao-cabral-de-melo-neto/

Leia poemas inéditos dessa série nas Plaquetes Literárias

Diálogo 1

João,

minha palavra
só lâmina
o corte seco.
Meu verso
se afia
nos punhais
facas
peixeiras.
Meus olhos
foram doutrinados
pela pedra
aquela externa
que arde interna.
Renasci
nos mangues
água e lama
voz de terra.
Nas mãos
o limite
do golpear
e do só cortar
a cana.
Um corpo
sem desfalque
inteiro
sem miolo
maciço.
Tornei-me
o que rasga
a pele do silêncio
a palo seco
um cantar
contra a queda
contra a vertigem
contra o outro.
Enfrentei
o silêncio
despido
e soube dele
o grito seco
quase surdo
curto fôlego
rente ao corte.
Por dentro
desentranhei raízes
deparei-me
com o aço
no lugar
do osso,
uma água
feita de rio
funda
parada
como se de molho
eu estivesse
em mim.
Registrei
os gestos do fogo
sua agonia
sua natureza faminta
tornei-me parte
dessa fibra.
A ti
poeta do nervo
devo a vida.

João Cabral de Melo Neto na Série Diálogos, por Mell Renault.

Diálogo 2

Indumentária

Há em ti
certo tom escuro
uma liberdade
de cinza
um ar abafado
abotoado junto
à camisa
que me parece
redoma
parede de concreto
cárcere infinito.
Esse presídio
que vejo
em ti,
pássaro que se debate
em si mesmo
contém
essa vertigem
de não se caber
em si
e de não se saber livre.
Te penso
sem invadir
tuas grades
sabendo dos limites
alinhavados
na bainha da calça,
esse calabouço
que te assegura
imprime essa
liberdade cinza.
Me pergunto
no silêncio
dessa gaiola
que te espio
– no escuro –
quando ninguém
te vê
de que estás vestida?
*
Mell Renault – em diálogo com o poema “Mulher vestida de gaiola” – Quaderna.

João Cabral de Melo Neto por Mell Renault - Série Diálogos.

Diálogo 3

Alvorada

No canto
de muitos galos
nasce a manhã
esse tecer
que é juntar
num coro
uma louvação
faz
nascer
essa teia
de muitas
outras manhãs.

nasce aqui
esse fio de sol
que fabrica o dia
forja
todo o cotidiano
ergue tenda
abre venda.
No canto
de muitos galos
vão se abrindo
– amanhãs –
aéreo futuro
no bico
que só descansa
depois
no escuro.
*
Mell Renault – em diálogo com o poema “Tecendo a manhã”.

João Cabral de Melo Neto - Mell Renault - Série Diálogos.

Diálogo 4

Dialeto

No idioma
da pedra
me faço
àquela
ali parada
no chão
aprendo o verso
rente a cana
o latifúndio do poema.
No idioma
da faca
aprendo a lâmina
só o seco corte
da mão o gesto
golpe certeiro
que extravasa
rompe mato
acalma vento.
No idioma
do chão
sertão é lixa
verso estaca
palavra seca
agreste
de quase tudo
fome
sede
cabra magra
chão riscado
que dita
destino
de morte
e vida
que é morte
Severina.
No idioma
do fogo
dicção labareda
composição brasa
palavra lava
que lambe o silêncio
com a língua.
No idioma
da lama
mangue
sangue
suor
verso como se vê
e é
despido
cru.
No idioma
raso
te saber
mudo
vazio
silêncio encarnado
duro.
Sonhar essa composição
calada
o desintegrar
deixar de ser
isto ou aquilo,
pousar o verso
nesse descanso
do sumir
ficar ali
entre estar
e só fingir
evaporar.
No idioma
da água
verso fonte
leito
rio que rompe
abre veios
carrega um povo
doutrina o corpo
verso manso
que reverbera.
No teu idioma
secreto
agonias
e nervos
dança
e choro
a mulher amada
Sertão
Sevilha
num mesmo
misturado.
Um grito seco
o mesmo golpe
da faca
a fruta madura
de textura grossa
que luz nenhuma
atravessa
o mesmo
teu verso.
Esse idioma secreto
teu palavrar
em verso
Capibaribe
vertigem
saudade e susto
língua Mater
da sua criação.
No idioma
inverso
calado
pontuado
com as mãos
se vê
vivo
o amor
de passagem
o amor acidental
o amor
que mesmo amando
causa transtorno
e no silêncio
devora utensílios
papéis
serviços
engole a casa.
Nesse tão teu idioma
vento
lama
fogo
a mínima água
fundo poço
verso
da sede
faz nascer
poemas.
Teu verbo
de carne
e aço
resistência fria
vivência concreta
amarra
minha palavra
abre em mim
verso corte
gramática
do verde
dialeto
do chão
linguagem seca
e gesto.

João Cabral de Melo Neto na Série Diálogos por Mell Renault.

Diálogo 5

Lapidação

Amolei o verso
na pedra do sono
vaguei noturno
por tuas margens
rio que é rua
que é terra
que é corpo
deixei
que fosse minha
a tua palavra
de faca
punhal
corte da cana
silêncio
e aspirinas.
Amolei o verso
na sina
morte e vida
Severina,
soube assim
muito de mim
e de ti
a faca só lâmina
o golpe certo
a palo seco
um canto
que rasgando
a tarde
abre-sol
no fio do rio
de fora
o mesmo
de dentro.
Pude em ti
ver
museu de tudo
terra
água
ar em recorte
de foice
fogo fátuo
vertigem sem medo
agrestes
onde pedra
não leciona
mas ensina.
Amolei meu verso
na realidade seca
que forjou tua palavra
e aprendi
que o amor
é esse que vem
e tudo devora.
Meu verso
a ti devo
pago à prestação
lapidando
o meu mais bruto.

João Cabral de Melo Neto é homenageado por Mell Renault na Série Diálogos.

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Luiza Cantanhêde

Maravilhoso! Maravilhosa!