Hilda Hilst

Biografia

Hilda de Almeida Prado Hilst (Jaú, SP, 1930 – Campinas, SP, 2004). Poeta, ficcionista, dramaturga e cronista. Após a separação de seus pais, em 1932, muda-se com a mãe, Bedecilda Vaz Cardoso, para Santos, e, em 1937, para São Paulo. Cursa o primário e o ginásio no internato do Colégio Santa Marcelina. Completa os estudos secundários no Instituto Mackenzie, em 1947. No ano seguinte, ingressa na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, graduando-se em 1952. Sua estreia em livro ocorre em 1950, com a publicação do livro de poemas Presságio. Em 1966, determinada a dedicar-se apenas à literatura, muda-se para a Casa do Sol, chácara em Campinas. Nesse ano, morre seu pai, Apolônio de Almeida Prado Hilst, que desde 1935, diagnosticado esquizofrênico paranoico, passa por períodos de internação em hospitais psiquiátricos – episódios relacionados ao momento tornam-se motivos recorrentes na obra de Hilda. Entre 1967 e 1969, escreve oito peças teatrais, parcialmente inéditas até 2009. Em 1970, estreia na prosa, com a publicação de Fluxo-Floema. A mãe, internada desde o início da década de 1960 também em hospitais psiquiátricos, morre no mesmo ano. Em 1990, com a publicação de O Caderno Rosa de Lori Lamby, anuncia que vai aderir à literatura pornográfica. Após sucessivas internações em decorrência de isquemias e tumores no pulmão, Hilda morre, em 2004.

fonte da biografia:
HILDA Hilst. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa3170/hilda-hilst.
ISBN: 978-85-7979-060-7

Capa do livro "Da Poesia" de Hilda Hilst.

Leia poemas inéditos dessa série nas Plaquetes Literárias

Diálogo 1

Querida Senhora H.

sou fruto
de sua figueira
corpo de terra
e água
em ti descanso
minha solidão
e meu secreto nome
– abismo.
Sou fruto
de sua figueira
musgo
geometria de luz
que entalha
meu poema
– abismo.
Sou fruto
de sua figueira
artéria de teus silêncios
que ainda pulsam
– abismo.
Em ti descubro
largas luas
e ouço cantar Dionísio.
Sou fruto
da sua figueira
reconheço-me
em ti
translúcida
à espera
do futuro prometido
– abismo.
Sou fruto
da sua figueira
refaço
fogo e vento
nos teus cantares
da noite.
Em ti
descanso
dissolvo em verso
teu mito de água
e voo
junto ao teu pássaro-poesia
nos azuis de todos os começos
– abismos.
Sou fruto
da sua figueira
moldo-te
por dentro
da minha palavra terrosa
– abismos.
Sinto tua forma
sem armaduras
ouço teus vermelhos
preexistindo
em tudo que me queima
e assusta.
Sou fruto
da sua figueira
carne e osso
em acordes
que machucam o tempo
– abismos.
Só tu sabes andar no breu
e ainda iluminas
só tu sabes
feita e refeita de ti
voragem infinita
que me habita
– abismos.

Hilda Hilst na Série Diálogos, por Mell Renault.

Diálogo 2

Fim

Esse
é um canto
de despedida
antes
atenta
chuvosa
alagada
presa em teias-luzes
de angústia
antes
esquecida
loba
fogaréu
tulipas
não havia notado
via crucis
corpo de carne
e sangue
e osso
falido
pensava
eternidade
unguentos e bálsamos
e não contava
com a fina lâmina
do tempo
a me roçar
a cara.
Este
é um canto
de despedida
longe
fortuito
repleto de esgarçado azul
e uvas
antes
acesa, repleta
corpo de água
fluída
não pensava
tempo, tempo
essa breve navalha
não sonhava
tua sombra
tão escura
o abraço
do último encontro
tão frio.
Este
é um canto
de despedida
sem passagem de três ou cinco luas
antes
não esperava
em brasa
sobre meu peito
de chama rasa
não contava
tempo, tempo
senhor imbatível
das minhas
asas.

Hilda Hilst por Mell Renault - Série Diálogos.

Diálogo 3

Engano

Se pensas
cálida
fresca
doce
serena
minha espera
se pensas
terra macia
jardim
sombra
da grande árvore,
nada sabes,
a teu encontro vem
tarde fechada
uivos
e trovoadas
doce amargo afago
de unhas e dentes
encantamentos
de fogueiras e luares.
Se pensas
versos mornos
brandura nos gestos
mansas mãos de afeto,
nada sabes,
a teu encontro vem
grito e susto
fome
alma ao avesso da carne
contração
de muitas e muitas
águas.
Se pensas
madressilvas
pérolas
rosas amarelas
em harmonia
com o sol da tarde,
nada sabes,
a tua espera
coágulo
sangue empoçado
figos abertos
prestes à mordida
guetos
becos
pátios escuros
fissuras,
nada sabes
de mim
trancada
no fundo
de uma
urna.

Hilda Hilst - Mell Renault - Série Diálogos.

Diálogo 4

Evocação

Toma-me
a palavra em fúria
essa cintila
sangue ferrugem
ocre antigo
o gosto terroso
da vida iniciada.
Toma-me
a palavra em fúria
essa que procura
entre os vãos da noite
ódio-amor
indivisível,
que procura
no esquadrinhar do verso
rever minha face antiga.
Toma-me
a palavra em fúria
essa
cega cansada
repete em mim
tantas sagas
de um pequeno Deus
que me vigia
entre luas
e cravos
verso estaca
repleto de uivos.
Toma-me
a palavra em fúria
essa
dilata o silêncio
quando expande o grito
constrói
no poema então
cerimônias,
a celebração
do pão
do vinho
do trigo.

Hilda Hilst na Série Diálogos por Mell Renault.

Diálogo 5

Anciã

Honro-te, Senhora
antiga face
da noite escura
honro-te, senhora
fogueiras
águas
e ventanias
o sumo marulhento
do verso azul
em céu desordenado
de constelações
honro-te, senhora
tua farta nudez
e teu nada
o teu Sem Nome
encantado
osso carne
verbo vermelho
bromélias
tulipas
teu jardim sagrado.
Honro-te, Senhora
antiga face
da noite escura
honro-te, senhora
teus mil sóis
e tuas chuvas
o cão que late
no pátio vazio
honro-te, senhora
tua vida
geografia íntima
da angústia
honro-te, senhora
a ti
tão velha
e
tão menina
mulher da volúpia
e dos figos
honro-te, senhora
teu excesso
teu deserto
tua pedra d’água
teu abismo
a outra face
tua morte
em torpor de vinhos.
Honro-te, senhora
o animal selvagem
que arranha
o som do teu verso
e o espinho cravado
na palavra luz
do teu verbo descontínuo
honro-te, senhora
sua arena de punhais
asa e voo
a fadiga da plenitude
tua eternidade.
Honro-te, senhora
danço teus cantares
de perda e predileção
repito em mim
tuas odes mínimas
e honro-te, senhora
fera na alma
aldeia em chamas
tua teia
a mãe antiga
honro-te, senhora
a mais antiga
das faces
da noite escura.

Hilda Hilst é homenageada por Mell Renault na Série Diálogos.

Voltar para Série Diálogos

Conheça a Cine Book

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.