Ferreira Gullar

Biografia

Ferreira Gullar – José Ribamar Ferreira, filho de Newton Ferreira e Alzira Ribeiro Goulart, tinha outros dez irmãos. Nascido em 10 de setembro de 1930, São Luís, Maranhão, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1951. Para assinar seus textos, o poeta escolheu o nome Ferreira Gullar, Ferreira é o sobrenome do pai e Gullar da mãe, só mudou a grafia, que é Goulart.

Na cidade maravilhosa, trabalhou na “Revista do Instituto de Aposentadoria e Pensão do Comércio” e como revisor na famosa “O Cruzeiro”. Foi também funcionário da revista “Manchete”, do “Diário Carioca” e do “Jornal do Brasil”. Antes, ainda em 1948, trabalhou na “Rádio Timbira” e no “Diário de São Luís”.

Casa-se com Thereza Aragão em 1954. Os filhos do casal são: Paulo, Luciana e Marcos. Em 1956, é um dos convidados da Exposicão Nacional de Arte Concreta. Em 1959, publica o “Manifesto Neoconcreto”, que recebe apoio de Amilcar de Castro, Lygia Clark, Franz Waissman, entre outros. O manifesto introduz o neoconcretismo, movimento que marca a valorização da subjetividade. No ano seguinte, o autor se envolve com uma poesia mais engajada, deixando o movimento de lado.

Em um concurso do “Jornal de Letras”, que tinha Manuel Bandeira como um dos jurados, Gullar foi o vencedor com o poema “O Galo”. “Um pouco acima do chão” é o primeiro livro de poesia publicado pelo autor. Uma de suas obras mais importantes, ainda no começo da carreira, foi “A Luta Corporal”, que introduz o concretismo no país.

Outra obra importante foi o “Poema sujo”, distribuído clandestinamente no período de ditadura. O poeta estava exilado na Argentina quando escreveu e Vinícius de Moraes foi quem decidiu que o poema precisava chegar ao Brasil. Gravado, “Poema Sujo” foi apresentado em reuniões e recitais.

Em 1961, o então presidente Jânio Quadros nomeia Gullar diretor da Fundação Cultural de Brasília. No ano do golpe militar, 1964, o autor se filia ao Partido Comunista Brasileiro. Foi preso em 1968 com o estabelecimento do Ato Institucional nº 5. Teve como campanhia Caetano Veloso e Gilberto Gil. Em 1971, decide se exilar. Mora na Rússia, no Chile, no Peru e na Argentina. Mesmo exilado, é um dos colaboradores do importante “O Pasquim”, mas assina como Frederico Marques.

De volta ao Rio em 1977, Gullar é preso novamente pelo substituto do DOPS, o Departamento de Polícia Política e Social. Fica três dias sendo interrogado e ameaçado.

Ferreira Gullar chega a colaborar com novelas da Rede Globo, por convite do também escritor Dias Gomes. O autor, que teve filhos esquizofrênicos, publicou em 1996 a biografia de Nise da Silveira, uma médica psiquiátrica que era contra o tratamento agressivo oferecido ao doente metal, em especial o eletrochoque e a lobotomia.

O poeta ganhou o Prêmio Camões em 2010, o Prêmio Jabuti em 2007 com o livro “Resmungos”, levou o prêmio novamente em 2011 com “Em alguma parte alguma” e a primeira vez foi com o livro “Muitas Vozes”, de 1999.

Ferreira Gullar faleceu em 4 de dezembro de 2016 na cidade do Rio de Janeiro.

fontes da biografia:
Cultura Para
Wikipedia

Capa do livro Toda Poesia - Ferreira Gullar.

Leia poemas inéditos dessa série nas Plaquetes Literárias

Diálogo 1

Querido Gullar

Descobri a flor em fogo
os deuses frágeis
as metades
partes inteiras
e tantas outras faces.
Convivi com o dia
vi o gato
o galo
a pêra
que ali apodrecendo
sofre como nós
a ação do tempo.
Soube
que o poema
reflete o povo
terra fértil
que recebe e se funde a espiga.
Extraí o sumo do verso
e aprendi
que vale a pena a vida
embora caro esteja
o pão, a carne, o feijão
embora o cansaço
embora estejamos condenados
embora
a liberdade seja curta
a vida vale.
Concretizei
o azul
no mar
no ar
no barco
na casa
na asa
na camisa
tingida de céu
vi
o vermelho
que o cão perseguia
na flor.
Me atrevi
palavrapoesia de cinza
palavrapoesia que fala do dia
palavrapoesia seca
mas que florescia.
Soube
que não se responde
certas perguntas
não adianta tentar
traduzir-se.
A dúvida
é alidada da criação,
a salvação metafórica
das respostas duras.
No susto
me lembrei
sou um homem comum
como você é um homem comum
feito de lembrança
e esquecimento
e isso me salvou de mim.
Foi você
que me ensinou
para que serve o nome
– para coisa nenhuma
e tudo.

Série Diálogos - Mell Renault.

Diálogo 2

Mortalha

Os mortos
estão vivos
andam pela casa
leem o jornal
batem a porta do quarto
com as nossas mãos.
Os mortos
estes que enterramos
o corpo
rígido, frio, opaco,
estão vivos
comem da nossa comida
vestem nossos casacos
calçam os nossos sapatos
com os nossos pés.
Estão ali
fixados no ontem
numa lembrança
de carne
onde a vida
não esvaiu.
Os mortos
estão vivos
vão à praia
atravessam a rua
pegam o metrô
com os passos largos das nossas pernas,
estão ali
no oco
da presença
transvestidos de memória
usando de nossas falências
e saudades.
Os mortos
estão vivos
e também choram
à sua ausência
pela lágrima
dos nossos olhos.

Diálogos com Mell Renault.

Diálogo 3

Resquícios

Amanhã, parto
vou-me embora
buscar outros lados
rumos, laços.
O que fica
de mim
nesse quarto amarelo?
O que
vem comigo
são os sorrisos
o cheiro do tabaco
o encardido do lençol
os nossos abraços.
Amanhã, parto
daqui levo
os olhos
os dedos
os versos pingados
a amizade
que a poesia
não consegue apreender
no poema.
O que fica de mim?
As cismas
os óculos de lentes sempre sujas
o papel embolado
jogado
naquele canto escuro.
Amanhã, parto
levo comigo
os nãos
o pente
o telegrama recebido de longe.
Deixo aqui
o que fica de mim
as mãos
o caminhar junto
o coração
este
que não morre
que não para
que insiste
ainda que
mergulhado na angústia.
Amanhã, parto
e deixo contigo, amigo
todas as minhas crias.

Série Diálogos com Ferreira Gullar.

Diálogo 4

Temporalidade

O que resta
desse corpo
fogo
dente
livro
ferrugem.
O que resta
desse corpo
pasto árido
fugidio.
O que resta
desse corpo
a fruta
o sal
o susto
o tempo lapidando
a velhice.
O que resta
desse corpo
o ar de verão
o ontem
posto no jarro
que enfeita a mesa de jantar
o abalo
o silêncio
que não faz acordar a memória
a palavra
o galo
que dormindo
não avisa o dia.
O que resta
do corpo
senão esse outro corpo
por dentro
osso frouxo
dissolvendo
o sem nome de mim?
O que resta
desse corpo
senão
a casa vazia
as janelas fechadas
e as angústias?
Desse corpo
não resta
nem mais a infância
dos dias gastos.

Mell Renault na Série Diálogos.

Diálogo 5

Ferramenta

Três
quatro
cinco
golpes
sete
oito
nove
golpes.
A luta corporal
de um corpo lúcido
a luta corporal
para se manter
vivo
a luta corporal
para expelir o poema
vivo
a luta corporal
para manter a fala
viva.
Resistir
à esse programa de homicídios
resistir.
Três
quatro
cinco
golpes
luta corporal
para manter o chão verbal
aceso
ouvir o galo
deixar que o poema
fique
sujo.
Seis
sete
oito
nove
golpes
luta corporal
a vida bate
assusta
a vida pela rua
insiste
luta corporal
de um homem comum
sem nome
voltando para casa
atravessando
um mundo
de armadilhas.
Três
quatro
cinco
golpes
a luta corporal
aqui
agora
ontem
amanhã
na vertigem do dia
luta corporal
de corpos desvalidos
luta corporal
de um povo
que mais parece
abismo
luta corporal
três, quatro, cinco
seis, sete, oito, nove
golpes
mas
a luta corporal
é que me mantém
vivo
vivo
vivo
porque só no corpo
é que a poesia
vive
vive
vive.

Banner da Série Diálogos - Ferreira Gullar por Mell Renault.

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