Cora Coralina

Biografia

Cora Coralina (1889-1985) foi uma poetisa e contista brasileira. Publicou seu primeiro livro quando tinha 75 anos e tornou-se uma das vozes femininas mais relevantes da literatura nacional.
Ana Lins dos Guimarães Peixoto conhecida como Cora Coralina, nasceu na cidade de Goiás, no Estado de Goiás, no dia 20 de agosto de 1889. Filha de Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, desembargador, nomeado por Dom Pedro II, e de Jacinta Luísa do Couto Brandão. Cursou apenas até a terceira série do curso primário.
Em 1965, com 75 anos, Cora Coralina conseguiu realizar o seu sonho de publicar o primeiro livro “O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais”. Em 1970, toma posse da cadeira nº. 5 da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás. Em 1976, lança seu segundo livro “Meu Livro de Cordel”. O interesse do grande público só foi despertado graças aos elogios do poeta Carlos Drummond de Andrade, em 1980.
Nos últimos anos de sua vida, sua obra foi reconhecida sendo convidada para participar de conferências e programas de televisão. Cora Coralina foi agraciada com o título de Doutor Honoris Causa da UFG. Recebeu o “Prêmio Juca Pato” da União Brasileira dos Escritores, como intelectual do ano de 1983, com o livro “Vintém de Cobre: Meias Confissões de Aninha”. Em 1984 é nomeada para a Academia Goiânia de Letras, ocupando a cadeira nº. 38.
A poetisa que escreveu sobre o seu tempo e sobre o futuro, destacando a realidade das mulheres dos anos de 1900 é o principal nome da cidade de Goiás. Em 2002, a cidade de Goiás com sua paisagem urbana predominantemente marcada pela arquitetura dos séculos 18 e 19, recebeu o título de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade, dado pela Unesco. A casa onde morou a poetisa Cora Coralina é hoje o museu da escritora.
Cora Coralina faleceu em Goiânia, Goiás, no dia 10 de abril de 1985.

fonte da biografia:
https://www.ebiografia.com/cora_coralina/

Leia poemas inéditos dessa série nas Plaquetes Literárias

Diálogo 1

Cora,

te penso mulher
do início de tudo
a velha mãe
a segurar no colo
os filhos perdidos.
Te penso mulher
no início de tudo
a velha bruxa
raizeira
que com doçura
e rigor
cura feridas.
Te penso mulher
no início de tudo
guardando no dentro
mais profundo
a menina Aninha.
Te penso
mãos de fogo
pés de terra
ventre que abarca
as águas todas
do mundo.
Te penso
verso em compota
servido
com café fresquinho.
Te penso
bálsamo
na chaga insuportável
do mundo.
Te penso mulher
no início de tudo
a ancestral
que aponta para o céu estrelado
e ensina
o mistério da vida.
Te penso mulher
no início de tudo
mãe
que carrega a humanidade
no seu útero bacia
e que olha o homem
no silêncio de suas sabedorias.
Te penso
na velha casa da ponte
guardando a fonte
da sua infância
rudimentar,
palha, linho, boneca de pano
joelhos ralados, bolo de milho
o descanso no tronco
da grande árvore.
Te penso
a confessar
a menina presa
ao engenho doméstico,
varrer aqui
socar pilão acolá.
Te penso
num passado
amassado
gestação antiga
mulher dos inícios
sonhos e terra crua
moinho de tempo
e reza.

Cora Coralina na Série Diálogos, por Mell Renault.

Diálogo 2

Resgate

Das infâncias
Aninha
me trouxe
a cor da tarde
o cheiro do mato
a luta diária
no tacho.
Das infâncias
Aninha
me trouxe
os bordados caprichosos
o poço fundo
de água
que servia a casa.
Trouxe
as cantigas
as lágrimas
a boneca de louça
trazia de longe,
trouxe as regras da vida
o oratório
a certeza
de que nasci fora do tempo
a pressa
de me apropriar
da vida.
Das infâncias
Aninha
me trouxe
a memória acesa
vela no castiçal
lamparina
sonhos,
o antigo vintém de cobre
que perdido
para mim
ainda tem
grande valia.
Das infâncias
Aninha
me trouxe
de volta
a vida.

Cora Coralina por Mell Renault - Série Diálogos.

Diálogo 3

Terreiro

Nas manhãs
no quintal
a descoberta
da pedra
do rio
do matagal.
Nas manhãs
no quintal
as lições dos pássaros
a chuva escorrendo
das árvores
a exploração do barro.
Nas manhãs
no quintal
o ninho
o poema inicial
o verso da sede
o cântico da terra
a louvação.
Nas manhãs
no quintal
taipa de lenha
panela de barro
pé no chão,
a vivência clara
de tantas mulheres
num mesmo engenho corporal.
Nas manhãs
no quintal
o tempo
passando
e ensinando
como semear.

Cora Coralina - Mell Renault - Série Diálogos.

Diálogo 4

Importância

Não importa
se curta
ou cumprida
a vida
nada será
se não
nos abraçarmos
e juntos andarmos
os mesmos e muitos caminhos.
Nada valerá
amanhã
se agora
no tempo de hoje
nossas mãos
não se entrelaçarem
e nossos olhos
não dizerem a verdade
se nossos braços
não forem sustentação
da luta e do afago.
Nada adiantará
se não soubermos
limpar as lágrimas
e olhar adiante
outro futuro
diferente desse premeditado.
Nada será
se agora
o silêncio se valer
de nossas palavras
e calados seguirmos cabisbaixos
sem saber o fio da meada.
Nada será
se ao invés
de nos amarmos
nos ferirmos.
Enquanto
durar a vida
curta ou cumprida
não importa,
é preciso
que seja intenso
o afeto
para que
sentido maior
a vida faça.

Cora Coralina na Série Diálogos por Mell Renault.

Diálogo 5

Preservar

Te guardo
na memória
das flores campestres
no sol quente
das tardes
no ninho de pedra
que inaugura a vida.
Te guardo
na compota
do doce
mais doce
na lembrança do sabor
mais vivo.
Te guardo
na fotografia antiga
rugas
sorrisos
as mãos sempre estendidas.
Te guardo
na fundura
dos versos
no silêncio
das vistas cansadas
no floral estampado
de sua alma.
Te guardo
mulher
a carga pesada
que vem do útero
a labuta.
Te guardo
no mais precioso de mim
a avó
quitute bem feito
tempero legítimo
alho-sal,
histórias antigas
as lições da vida dura.
Te guardo
no verde
no azul
na lasca da porcelana quebrada
na fornalha acesa
no cheiro do pão assado.
Te guardo
no mais íntimo
de mim
nos exemplos
da bondade
no gesto contido
no falar quase mel
das palavras.
Te guardo
viva
enraizada
florindo
nos galhos
da grande
árvore.

Cora Coralina é homenageada por Mell Renault na Série Diálogos.

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